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BIODIESEL, ETANOL, GOVERNO E INVESTIMENTOS, BIODIESEL, ETANOL, GOVERNO E INVESTIMENTOS
Os biocombustíveis entram no jogo global
15/12/2006
Consolidou-se no ano que agora finda uma nova tendência, a entrada dos biocombustíveis na matriz energética global. A maior indicação disto está no fato de que a indústria do petróleo passou a incorporar o etanol e o biodiesel no seu portfólio de investimentos, fazendo disso o maior alarde (basta olhar o novo logo da BP e a publicidade mundial da Chevron, falando com entusiasmo do biodiesel). Até 2006, o setor de petróleo tratava como exóticos os produtos provenientes da agricultura.
Acredito que a combinação de altos preços do petróleo, com as convincentes evidências do processo de aquecimento global resultaram nesta profunda modificação. Para nós brasileiros, acostumados com o sucesso do etanol proveniente da cana-de-açúcar (que é o único combustível que, simultaneamente, é renovável, competitivo sem subsídios e que exige apenas um barril de petróleo para economizar oito), a aceitação dos biocombustíveis parece mais ou menos normal. Para o resto do mundo é uma revolução.
Para a agricultura a grande modificação vai se dar no mercado de grãos, pois a lógica da produção de alimentos vai se misturar com a lógica do mercado de energia, afetando o equilíbrio de ambos.
Para entender melhor esta questão, voltemos ao caso do etanol de cana. Quando se lançou o Proálcool, nos idos dos anos setenta, os mercados de açúcar e de álcool disputavam a mesma cana e logo nos demos conta que o preço de um dos produtos poderia subir relativamente ao outro, produzindo abundância em um mercado e escassez no outro. Foi o que aconteceu em 1989, quando a alta do preço do açúcar resultou em desabastecimento de etanol; os consumidores reagiram deixando de comprar carros a álcool e, na prática, o programa morreu.
A situação só foi resolvida de forma completa há pouco tempo, com a inovação dos carros de motor flexível. Até então, as variáveis de ajuste consistiam na variação do porcentual de mistura do anidro na gasolina, e alguma exportação de álcool, instrumentos visivelmente insuficientes para ajustar o mercado. Longas discussões sobre um estoque regulador nunca resultaram em algo aproveitável. No início deste ano a reação do público à redução da disponibilidade de álcool na entressafra de cana foi notável: rapidamente os motoristas aprenderam a mudar para a gasolina sempre que o diferencial de preços na bomba ficasse inferior a 25%, o que levou ao ajuste dos mercados.
Além do equilíbrio álcool/açúcar, os primeiros anos do Proálcool foram marcados pelo receio que a disputa por terras prejudicasse a produção de alimentos. Isto só se dissipou com o pacote tecnológico que permitiu a incorporação ao processo produtivo das terras do cerrado, concomitante à contínua elevação da produtividade da cana.
Como se vê, foram precisos quase trinta anos para que se encontrassem mecanismos de convivência e equilíbrio na produção simultânea de alimentos e biocombustíveis.
Foram precisos quase 30 anos para que se encontrassem mecanismos de convivência na produção simultânea de alimentos e biocombustíveis
É por um desafio semelhante que passará a agricultura mundial. Entretanto, ao contrário do Brasil, a maior parte dos biocombustíveis será produzida a partir de grãos, e é nestes mercados que veremos a dificuldade de ajustar a demanda de alimentos com a demanda de energia.
Um início deste processo já se tornou visível nos últimos noventa dias, quando uma quebra importante na safra de trigo em vários países do mundo elevou seus preços e empurrou os fabricantes de rações a buscar mais matérias primas nos mercados de milho e soja. Ora, o mercado de milho nos Estados Unidos já vinha muito pressionado pela procura das novas plantas de etanol, resultando em expectativas de baixos estoques e, naturalmente, cotações em alta (espera-se que no próximo ano a indústria de etanol moerá algo como 65 milhões de toneladas de milho, que se compara com a atual safra de 280 milhões de toneladas, aproximadamente). Da mesma forma, a demanda de soja para a produção de biodiesel se elevou, movimentando todo o complexo de grãos e resultando, nos últimos noventa dias, em altas de 20,9%, 45% e 18,4% nas cotações de, respectivamente, trigo, milho e soja.
Quais deverão ser as principais conseqüências destas transformações?
Para a agricultura americana , a disputa por terras tende a aumentar (bem como em outras regiões maduras), com prováveis ganhos para o milho. Para o mundo como um todo, a pressão da demanda de grãos implicará numa elevação do custo de produção de carnes, reforçada pela incorporação de milhões de novos consumidores na Ásia. Exportações de milho e frango nos Estados Unidos tendem a perder competitividade. No caso do milho, é altamente provável uma queda das quantidades vendidas ao exterior em termos absolutos.
O Brasil certamente será ganhador neste processo. As recentes altas de preços ocorreram simultâneas ao plantio, revertendo o ânimo do agricultor. A forte demanda de fertilizantes, de setembro em diante, atesta bem esta afirmação. Muitos produtores venderam futuro, aproveitando o bom momento; pela primeira vez lotes expressivos de milho foram comercializados.
Abrem-se fortes possibilidades do país se tornar um exportador regular de milho, bem como elevar as exportações de soja, carnes e até de leite, sem detrimento da produção de cana e biodiesel. Afinal, o país é um dos poucos que tem condições de incorporar novas áreas ao processo produtivo e pode, portanto, elevar simultaneamente a produção de alimentos e energia.
Finalmente, não é demais reafirmar que as atuais e renitentes deficiências na área de logística e de defesa sanitária são cruciais neste processo. O agronegócio está começando a sair de uma sucessão de anos difíceis e não pode continuar pagando estes custos.
P. S.: A alta dos preços de grãos não altera em nada os argumentos de uma moderação no mercado de matérias-primas, tal como tratado na coluna de setembro passado (O mercado de commodities está virando). Essencialmente porque nosso ponto centrava no enfraquecimento dos preços de petróleo e derivados e em certos metais industriais, resultantes da desaceleração esperada na economia mundial, o que se reforça a cada semana. Tanto isto é verdade que, em paralelo à elevação dos preços de grãos, o índice CRB continua sendo negociado na faixa de 310 pontos no mesmo período.
Fonte: Valor Online
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